Em um domingo de grenal, um pequeno grupo de aficionados se reuniu no Ocidente para assistir ao debate “Mas o que é a nova literatura?”. Deste debate participaram editores (como o Samir, meu sócio na Não), escritores (Léo Felipe) e… um crítico. Carlos André Moreira, possivelmente o único sujeito que escreve críticas em jornal de grande circulação aqui no RS. Duas coisas me surpreenderam quanto ao Carlos André Moreira: a primeira foi como o sujeito era desenvolto nas suas respostas e comentários. É tranquilizante saber que a crítica literária mais lida no RS está a cargo de alguém inteligente. A segunda foi: a vontade das pesoas de saber o que um crítico pensava! A platéia e até mesmo a garçonete do Ocidente disparavam perguntas sem parar para o Carlos André. Foi aí que notei como as pessoas estavam cheias de dúvidas sobre o trabalho do crítico. Por esses dois motivos, Carlos André Moreira estava na minha lista de prioridades quando abri esse blog.
Espero que gostem da entrevista.
Antônio Xerxenesky: Uma imagem clássica do crítico, que retorna a cada polêmica que surge, é do crítico rancoroso, repleto de desavenças pessoais. Um caso recente é o de Jerônimo Teixeira, crítico da Revista Veja, que quando criticou autores contemporâneos em um artigo particularmente cruel (onde chegou a montar um esquema de “como ser um escritor transgressor”) foi acusado por muitos de fazê-lo por recalque, porque suas obras literárias não chamavam atenção da mídia como as daqueles que criticava. O que você acha dessa imagem? E, em uma pergunta mais aberta e lógica: é possível deixar rancores pessoais de lado na hora de escrever uma crítica?
Carlos André Moreira: Começando com o caso do Jerônimo em particular, eu não tenho como tecer comentários sobre os motivos dele ou os de qualquer crítico que não eu mesmo para escrever o que escreve sobre qualquer livro ou autor. No artigo em questão, me lembro de que havia no texto alguns argumentos pertinentes sobre a produção de alguns daqueles autores que foram abafados pelo barulho resultante da provocação aos escritores novos em bloco. Se por um lado isso provocou uma discussão que sempre é notável, acredito, quando a literatura já não ocupa mais o espaço de outros tempos no debate aberto na mídia, por outro desviou para os pontos folclóricos as considerações que o crítico havia apresentado. Digamos que o Jerônimo pegou um mote que foi dado pela própria existência de uma coletânea reunindo alguns daqueles nomes com o adjetivo “transgressores” no título. E os autores replicaram com o fato de que até aquele momento em particular Jerônimo havia feito ele próprio suas tentativas na ficção sem repercussão digna de nota, ou seja, a discussão se assemelhou perigosamente a uma picuinha de parte a parte. E no fim, o que menos se debateu depois que se chegou a esse ponto foram os próprios livros, o que foi uma pena. Hoje o próprio cenário dessa polêmica mudou, dado que cada vez mais os “novos transgressores” são os nomes estabelecidos e o Jerônimo relançou seus livros pela Record.
Quanto aos rancores pessoais e à capacidade de o crítico deixá-los de lado quando em presença de uma obra a ser analisada, acho que há dois ângulos a serem abordados: o primeiro é que sim, é possível, mas acredito que isso vá muito da formação de cada um e de como ele exerce sua atividade crítica. Acho que a melhor maneira de lidar com essa questão é o crítico interrogar-se abertamente o tempo todo: “estou gostando deste livro?”, “não estou?”, “se não estou, é por ser do autor fulano de tal ou porque há deficiências na sua construção, na sua estrutura, no uso da linguagem?” Acho que é isso que qualquer crítico faz em qualquer situação, aliás. O crítico também é um leitor, e também busca na sua leitura o prazer estético, a obra cuja leitura será arrebatadora, o que muitos às vezes esquecem. Falando do meu caso particular, já me aconteceu de ser surpreendido pela leitura interessada e, em alguns pontos, entusiasmada, de um autor por quem nutro poucas simpatias pessoais, e o contrário também ocorre: esperar que um livro de determinado autor seja ótimo por ser daquele autor e se decepcionar. Esse jogo de cintura é fundamental. Agora, se o caso for o de uma antipatia biliar que não seja contornável nem permita juízo racional ou qualquer conexão emocional com a obra, bom, aí é o caso de o crítico ser honesto o bastante para se declarar impedido. Ainda não aconteceu comigo, tive a sorte até o momento de não ter em mãos para analisar livros de ninguém que eu particularmente deteste.
AX: Você é um dos únicos críticos literários do único veículo midiático de grande circulação no RS que ainda publica opinião sobre obras literárias. Além do mais, o espaço para livros é curto, permitindo apenas resenhas breves, nunca críticas mais aprofundadas. Você acha que a situação pode um dia vir a melhorar ou o espaço dedicado à crítica literária apenas diminuirá? É possível pensar na internet (blogs) ou publicações alternativas (zines) como saída?
CAM: Começando pelo fim: acho a internet realmente é um espaço que ainda nos dará muitas boas surpresas na área da literatura, pode funcionar de forma independente, pode lidar melhor com as restrições de espaço e seu custo de produção é barato. Há mais de um caso de portais hoje relevantes em várias áreas que começaram há uns anos como um blog de dois ou três sujeitos e um computador ligado à internet. Na área de cultura e entretenimento, há iniciativas relevantes, por exemplo, como o Omelete, o Neorama e o Digestivo Cultural. O problema é que muitos desses sites, independentemente do conteúdo se de qualidade, não conseguem se tornar iniciativas rentáveis, como o fim do No Mínimo veio provar.
Dito isso, e sabendo que mesmo os grandes veículos acordaram para o potencial da internet e começaram a investir em conteúdo online, creio que virá dessa articulação a subversão da exiguidade dos espaços num futuro imediato. Não é apenas o espaço de crítica literária, é o espaço de texto como um todo, e em todos os grandes jornais, que está sendo progressivamente diminuído, e não vejo reversão dessa tendência por enquanto, ainda mais porque os jornais no mundo inteiro estão verificando uma queda de circulação. Mas como as linhas de gerenciamento desse tipo de coisa se dão em ondas, talvez mais adiante se descubra que o jornal precisa ocupar o espaço do texto consistente que a internet e a TV ainda não ocuparam, e os textos aumentem de novo. Infelizmente, não sei dizer. Acho que se tivesse talento para administrar qualquer coisa teria feito outra faculdade.
AX: A Zero Hora passou a utilizar um sistema de notas de 1 a 5 estrelas para avaliar todos produtos culturais. Dar uma nota a um livro não seria uma tarefa mais difícil que avaliar um filme, já que a história da literatura é maior que a do cinema? É necessário relativizar completamente? Exemplo: considerar o livro avaliado tendo por base se é um livro de Porto Alegre contemporâneo e julgá-lo com base nessa cena, ou um relativismo parcial, conferindo cinco estrelas apenas a um livro que você consideraria um novo clássico da literatura contemporânea. Ou ainda, uma ausência total de relativismo, pensando em uma hierarquia “absoluta” em que os únicos livros 5 estrelas seriam clássicos como Dom Quixote? Como você se posiciona nessa questão?
CAM: Bom, houve uma grande discussão interna quanto a esse sistema de estrelas, e cada área ficou mais ou menos livre para estabelecer seus critérios, valendo-se do bom senso e da fundamentação pessoal do crítico que analisa a matéria a ser comentada. Na área da literatura meu critério tem sido: cinco estrelas, obras de excelência, talvez futuros clássicos, não sei, e é uma categoria que tenho usado com parcimônia. Quatro estrelas: o que é muito bom. A faixa de três estrelas é a do produto médio, que não se eleva mas é bem executado; a de duas é a do que não chegou lá em termos técnicos ou narrativos, apresenta graves defeitos mas não é uma perda total. A de uma estrela é para o que é ruim mesmo – e por enquanto também tenho usado muito pouco.
E o relativismo, embora exista, não é total. Não posso cobrar do autor estreante o mesmo que se espera de um Philip Roth, de um Cormac McCarthy, por exemplo, é o único relativismo que aplico. Fora isso, não vejo por que precisaria relativizar a exigência para a cena local, dado que não critico com veemência a edição de um livro, por exemplo. Diferentemente de um disco ou de um filme, as condições de produção da obra em si dependem unicamente do autor. A apresentação da obra, sua tiragem, mesmo a divulgação dependem de diversos fatores econômicos outros. Mas a qualidade da obra como narrativa não.
AX: Um comentário que escuto com freqüência nos círculos literários é o seguinte: cada vez se escreve mais no Brasil (entre outros motivos, pela proliferação de oficinas), cada vez se publica mais, mas o público leitor interessado em literatura não parece aumentar, ainda que o acesso a livros tenha crescido. Qual a sua posição nessa questão?
CAM: Sim, creio, sem nenhuma base estatística para tanto, que o público consumidor de livros ainda é basicamente o mesmo, em números proporcionais, se não estiver diminuindo. No seu recente livro de crônicas, “O romance morreu”, Rubem Fonseca defende a mesma coisa: o romance não vai morrer, talvez o que morram sejam os leitores. Dito isso, haveria algumas considerações. Uma delas é que no Brasil, como em outros setores da sociedade brasileira, também entre o público leitor (ou o público que vai a cinema, ou o público que ouve música) a regra é uma disparidade incontornável, um abismo entre duas camadas específicas da população, o zero vírgula oito e o oitenta, quem é consumidor regular de livros por hábito e quem passa anos sem abrir nenhum. A maioria, provavelmente. Parece haver uma carência do que se chamaria o “público médio”, aquele leitor mediano que não tem uma base sólida de erudição ou não formou suas leituras sistematicamente, mas consome livros mesmo assim, mesmo que a chamada literatura de entretenimento. Uma coisa que parece clara é que o público leitor e o público interessado em literatura não são exatamente a mesma coisa. O primeiro inclui leitores de gênero, quem só lê um romance policial de vez em quando, leitores de Paulo Coelho, Dan Brown, livros para “divertir”, para o leitor “esquecer do mundo”, Júliabiancasabrina. Já o público interessado em literatura no sentido estrito é bem menor, e talvez sempre tenha sido, dado que a escolaridade para todos é uma noção teórica que só vai ganhar corpo como política de estado no século 20, e só o romance realista, por exemplo, é bem mais antigo do que isso. Logo, o número de leitores hoje provavelmente representa mais do que naquela época.
O próprio George Steiner identifica entre meados do século 19 e o início do 20 o período que ele chama de a “grande trégua” entre público leitor e crítica, o período em que os livros à disposição recebiam atenção pública, leitores, e ainda eram escritos por gente como Zola, Dostoiévski, Poe ou Thackeray. No século 20, ocorre o divórcio vanguardista, que busca meios de expressão condizentes com a fragmentação da experiência na modernidade e o grande público mergulha nos autores mais tradicionais. Hoje o próprio sentido de “vanguarda” artística parece não ter mais lugar, mas o divórcio entre grande público e artistas prossegue, não há como se livrar dele de uma hora para outra. Até porque a própria literatura hoje compete com outras modalidades de arte, mídia e entretenimento. Acredito que fosse muito mais fácil fisgar um leitor quando as únicas alternativas de distração disponíveis eram leitura, teatro à luz de velas ou saraus com piano e poesia na casa de alguém (brrr…)
AX: Você acha que a crítica sobre obras contemporâneas tem como função (uma das funções, pelo menos) dialogar com o autor? Ou ela deve buscar mais a produção de sentido em cima da obra e (no caso da crítica para o jornal) servir como “guia de consumo” para o leitor, indicando no que vale mais a pena investir?
CAM: Acho que se for possível ter todas essas coisas, melhor. Mas tenho a tendência de ver o “diálogo” entre autor e crítica com algum ceticismo. Se um autor tiver uma inquietação real presidindo o plano de sua obra, mesmo com alguns momentos de indecisão ou insegurança ele há de perseverar com ou sem a crítica, e o diálogo que a crítica pode produzir nesse sentido é apontar um que outro problema de ordem técnica _ ainda assim dentro de um determinado contexto. Esses problemas não chegam a configurar um real diálogo porque a crítica é feita sobre uma obra que já está concluída, foi publicada, ganhou o mundo, daqui para diante serão apenas as leituras. Nesse sentido, apontar os tais problemas técnicos seria uma atitude visando à produção futura desse autor, o que assume um, para mim, caráter admonitório não de todo agradável. Essa troca pode realmente ser feita, mas não creio que a crítica deva se arvorar uma missão divina nesse sentido. Creio que a crítica tem de, sim, produzir uma leitura outra de uma obra que não a que o próprio autor já fez _ muitas vezes a leitura de outros vai apontar sentidos que o próprio escritor não captou conscientemente. Outras vezes, a leitura de um terceiro é uma completa bobagem do ponto de vista do autor, mas pelo menos serve para que ele perceba que tipo de leitor não será o seu, digamos assim, e que tipo de elemento ele falhou em expressar na passagem da intenção para a execução. Como eu trabalho em um jornal de grande circulação, por vezes têm-se de lidar também com a questão “guia de consumo”, mas isso é inevitável e condiciona menos do que o aspecto notícia, por vezes, esse sim determinante para que se publique resenhas de Harry Potter ou Paulo Coelho, por exemplo. Como a Zero Hora é um jornal gaúcho, também temos a orientação editorial de lançar um olhar sobre a produção daqui, e acho que isso tem sido feito. Mas o ponto “guia de leitura” eu vejo da seguinte forma: eu leio o livro, eu escrevo um texto que em parte organiza os elementos de enredo para o leitor e em parte é uma leitura minha, o que o livro me suscitou. Dou o preço e a editora, e se o cara quiser comprar, daí é com ele. Lá de vez em quando fazemos uma daquelas matérias recomendando “leituras de estação”, que seja, mas a minha idéia é antes refletir sobre a obra e informar que ela está sendo produzida do que indicar “compre este ou aquele”. O que faço, às vezes, é chamar a atenção quando uma obra que vinha hà tempos esgotada ganha reedição. E quando há mais de uma edição da mesma obra, listá-las, e o leitor decida para onde vai seu rico dinheirinho.
AX: O fato de que há um volume monstruoso de livros sendo lançados por semana dificulta o trabalho do crítico, mesmo que ele escolha apenas um livro para resenhar por semana? Bate a sensação, alguma vez, de que alguma obra não recebeu o tempo de leitura que necessitava?
CAM: O tempo de leitura até que não, talvez o tempo de maturação, aquele respiro no qual as impressões criadas por uma obra começariam a decantar em ti os sentidos e leituras. Mas isso, infelizmente, é meio que inevitável na produção de um jornal diário da imprensa de grande circulação. Portanto, da imprensa que fala para uma faixa ampla de público. Alguns podem argumentar que em literatura o ideal seria uma publicação quinzenal ou mensal, digamos, com um corpo amplo de resenhistas, um pouco como já é o Rascunho, por exemplo, ou como foi a infelizmente encerrada Entrelivros, mas o fato é que a Zero Hora é um veículo de imprensa que precisa lidar com as imposições clássicas do jornalismo diário: a exigüidade do tempo e a necessidade de ser compreendida pelo maior número de pessoas, e o jeito é trabalhar com isso da melhor maneira, o que no meu caso significa ler com atenção e critério e escrever com honestidade. Outra coisa pode acontecer, e comigo já aconteceu: a angústia do crítico perceber que, por uma desinformação pontual ou mesmo por uma idéia que mais tarde se revelou enganosa ou equivocada, ele deixou de lado um livro que merecia uma leitura mais atenta justamente por essa necessidade de selecionar o que é lido. Mas acho que é inerente a um momento em que se publica tanta coisa. Escolhas são necessárias, mesmo que nem sempre as certas. Mas isso, creio, é algo que mesmo um autor enfrenta em seu próprio trabalho: escolher se narra em primeira ou terceira, se em estrutura linear ou fragmentária, como articular a linguagem e o conteúdo. São escolhas constantes, e o autor precisa confiar nelas. No meu caso, confio nas minhas porque me mantenho informado o máximo possível e já li o suficiente nesta vida para reconhecer uma obra boa, por exemplo.
AX: T.S. Eliot, em um texto de 1943 que foi central para o New Criticism, procurou repensar o recorrente tema da “função social da poesia”. Hoje em dia, ainda é possível pensar em uma função social da poesia, ou, de modo mais abrangente, da literatura? O mero ato de escrever literatura pode ser considerado um ato político de alguma relevância?
CAM: Pela última pergunta: sim, acredito que sim. Quem escreve literatura escreve porque acha que o que tem a dizer é relevante em algum cenário ou circunstância, e isso, bem ou mal, é política. Agora, se a literatura deve ou não refletir o seu tempo é uma questão delicada. Acho que vivemos em um tempo em que o valor estético progressivamente começa a tomar o lugar do valor ético. Ou melhor dizendo: vivemos em um tempo de uma ética pautada pela estética, e quando um autor se dedica a sua obra ele tem um compromisso estético com seu trabalho, qualquer compromisso político assumido por um escritor em suas obras terá de passar, no fim, pela questão estética: um livro tangencia questões da realidade ou não, não importa, mas é o livro que o autor quis escrever, em primeiro lugar, ou o livro conseguiu escrever baseado no que queria. A função da literatura é a função da arte como um todo: o valor do inútil, de algo que nos eleva além da existência pragmática e cada vez amis automatizada de todos os dias.